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domingo, 25 de setembro de 2011

''O meu tempo passa sem uso porque eu passo os minutos contando quantos faltam pra você parar de fazer o que está fazendo e, finalmente, me notar. Você é meu, e está aqui, mas não está comigo. O tempo todo eu passo esperando aquele tempo curto que você vai prestar atenção em mim e só isso, sem desvios. Mas você é tão ocupado das suas próprias prioridades, dos seus próprios cansaços, da sua própria vida que os seus segundos a cada dia se excedem, e os meus vão devagar chegando ao fim. Mas a culpa é um pouco minha que não uso melhor as minhas horas de espera. Eu devia tomar coragem e fazer com que elas virassem horas de busca; não de você.''
Rani Ghazzaoui
''Me irrita gente que não consegue enxergar além do obvio da lagrima, gente que não consegue ver o lado bonito da dor (sem nada depressivo camuflado aqui). O que quase ninguem entende é que, pra mim, doer não significa necessariamente não ser feliz. A melhor coisa do mundo inteiro são aquelas risadas de fazer doer a barriga, de dar cãibra no maxilar, abraçar gente que a gente quer abraçar (...) Mas acontece que nenhuma dessas sensações anula o outro lado da moeda. Todo mundo é multissensitivo, todo mundo é capaz de sorrir e de chorar, é capaz de pensar além do que se ouve, é capaz de entender o que sente e de pensar a respeito disso. Acontece que nem todo mundo se interessa em se explorar, em se conhecer, em pensar um pouco fora da caixinha que deram pra gente colocar ao redor do nosso jugamento quando a gente ainda era criança. (...)''
Rani Ghazzaoui
''Quando o sol sossegava e começava a querer fugir do que causou, vinham então as estrelas, tão espertas. Propunham brilhar-se todas e entreter os dois, fazê-los amolecer com o frio da noite e dizer bobagens quaisquer para esquecer o que se passava. Não dava.
As estrelas deles vinham separadas, também. Por oceanos, terras, mares, rios, planetas, ventos, tudo. Era muito longe. Ele cá, ela lá. Doía de novo.
A noite propunha sacanagem e desgosto de estar só. Mas ao final só sobrava o segundo e a certeza de que era mesmo a maior sacanagem da história estarem sem poder se tocar, daquele jeito...
Aí pensavam em largar tudo, em largar trabalho, escola, família. Em se largar em nome do outro. E desistiam. Doía.Enquanto um amanhecia, o outro adormecia e seguiram os dias com essa brincadeira de gato e rato que nunca se encontram. Ficavam assim, então: sobrevivendo a cada dia e esmorecendo a cada noite. Lutando contra o medo do mundo e o medo deles mesmos, por estarem em mundos tão diferentes por hora, agora, pra sempre, quem sabe? Não sabiam.
Tentavam acreditar numa mudança, num descaso do destino que insistiu em manter-lhes assim, um descuido que deixasse um deles passar, fugido. Tentavam fugir da verdade e se encontrar um no outro, mas se perdiam. Estavam perdidos. Nos dias quentes, nas noites longas, na espera fria. Só sei que doía.''
Rani Ghazzaoui